Fitocanabinoide com benefícios terapêuticos e diversificada abordagem terapêutica.
Visão geral
A Cannabis sativa é cultivada tanto por suas propriedades medicinais quanto por sua utilidade como fibra têxtil natural, contendo mais de 400 compostos químicos, dos quais aproximadamente 80 são biologicamente ativos. Dentre eles, os mais relevantes são os canabinoides, formados pela combinação de um terpeno com resorcinol.
Existem cerca de 60 canabinoides, sendo o principal composto psicoativo o tetra-hidrocanabinol (THC), especificamente o isômero delta (Δ9-THC). Outros compostos importantes incluem o canabidiol (CBD), canabigerol (CBG), canabinol (CBN), canabicromeno (CBC) e olivetol. Além dos canabinoides, a planta contém terpenoides como β-mirceno, β-cariofileno, D-limoneno, linalol, piperidina e p-cimeno, além de flavonoides como a quercetina.
Flores et al., 2023
Abordado amplamente na literatura, o CBD, por sua vez, não é tóxico e não apresenta atividade psicoativa, mas possui diversos efeitos terapêuticos benéficos e, em alguns casos, o paciente pode desenvolver também reações adversas.
Rapin et al., 2021
Exibe propriedades analgésicas e anti-inflamatórias, atuando por meio da inibição das enzimas ciclo-oxigenase e lipoxigenase. Além disso, o CBD tem mostrado potencial neuroprotetor, antioxidante e anti-inflamatório, sendo investigado em modelos de doenças neurodegenerativas como Alzheimer, Parkinson e Huntington.
Estudos indicam que o CBD possui efeitos ansiolíticos, conforme demonstrado em modelos animais e em voluntários saudáveis, além de reduzir a ansiedade em pacientes com transtorno de ansiedade social.
Meissner & Cascella, 2024
Em 2018, após a avaliação de ensaios clínicos randomizados sobre a eficácia do CBD no tratamento das síndromes de Lennox-Gastaut (LGS), síndrome de Dravet (DS) e complexo de esclerose tuberosa (TSC), a FDA aprovou uma formulação de CBD para o tratamento dessas desordens e também para o público pediátrico a partir de 12 meses de idade.
A administração adequada do CBD demonstrou redução significativa na frequência de convulsões nessas síndromes, sendo estas notoriamente difíceis de tratar.
Taylor et al., 2018
Apesar de evidências de estudos limitados e das controvérsias envolvendo seu uso, pesquisas sobre o CBD vêm ganhando força e já evidenciam resultados promissores sobre diferentes patologias, a depender de alguns fatores como patologia, período de utilização e dose utilizada.
O CBD tem demonstrado benefícios na melhora da qualidade do sono e no alívio do estresse. Além disso, pode atuar positivamente em desordens psiquiátricas, incluindo tratamento de dependências, alterações de humor, depressão e transtorno de estresse pós-traumático, embora seus mecanismos ainda não estejam esclarecidos.
Bellocchio et al., 2023
Potenciais benefícios do canabidiol sobre diferentes patologias
Doses citadas em estudos clínicos ou revisões sistemáticas
A
Dor crônica
2,5 mg a 50 mg/dia Alívio na intensidade da dor, especialmente em condições neuropáticas e inflamatórias.
Vučković et al., 2018; Silvestro et al., 2019; Boehnke et al., 2021; Villanueva et al., 2022; Flores et al., 2023; Safi et al., 2024
B
Ansiedade
300 a 600 mg/dia (dose única) Efeito ansiolítico sobre o transtorno de ansiedade.
Blessing et al., 2015; Mandolini et al., 2018; Silvestro et al., 2019; Shannon et al., 2019; Wieckiewicz et al., 2022; Bellocchio et al., 2023
C
Convulsões (especialmente síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut)
10 a 20 mg/kg/dia Redução significativa na frequência de convulsões, melhorando a qualidade de vida.
Devinsky et al., 2017; Silvestro et al., 2019; Lazarini-Lopes et al., 2020; Zavala-Tecuapetla et al., 2022; Villanueva et al., 2022; Meissner & Cascella, 2024; Zuardi et al., 2024
D
Esclerose múltipla
2,5 a 120 mg/dia Redução de espasmos musculares, melhora na mobilidade e redução de sintomas associados.
Consroe et al., 1997; Zajicek et al., 2012; Nielsen et al., 2018; Koppel et al., 2018; Sirbu et al., 2023
E
Doença de Parkinson
75 a 300 mg/dia Redução de tremores e melhora na qualidade de vida, beneficiando sobre os sintomas motores e não motores.
Chagas et al., 2014; Lotan et al., 2014; Bougea et al., 2020; Urbi et al., 2022
F
Controle de náuseas e vômitos
5 a 10 mg/m² dia (em alguns estudos, dose única de 5 a 10 mg) Efeito antiemético, ajuda a regular a sensação de náusea e inibe o reflexo do vômito.
Parker, Rock & Limebeer, 2011; Villanueva et al., 2022; Louis-Gray et al., 2022; Bellocchio et al., 2023; Safi et al., 2024
G
Autismo
1 a 2 mg/kg/dia Redução de sintomas como agressividade, hiperatividade e alterações no padrão de sono.
Aran et al., 2019; Fleury-Teixeira et al., 2019; Bilge et al., 2021; Ma et al., 2022
H
Desordens neurodegenerativas
300 mg/dia Potencial efeito neuroprotetor, atua como antioxidante e anti-inflamatório, podendo reduzir o avanço dos sintomas.
Fernández-Ruiz et al., 2013; Mandolini et al., 2018; Silvestro et al., 2019; Rapin et al., 2021; Bhunia et al., 2022
I
Desordens inflamatórias
1 a 50 mg/kg/dia Propriedades anti-inflamatórias que podem ser benéficas em doenças como artrite reumatoide e desordens intestinais inflamatórias.
Silvestro et al., 2019; Villanueva et al., 2022; Bellocchio et al., 2023; Sklenárová, Šíma & Slanař, 2023; Safi et al., 2024
J
Alteração no apetite
2,5 mg a 10 mg (dose única ou em doses divididas) Ajuda a regular o apetite.
Villanueva et al., 2022; Pinto et al., 2022; Safi et al., 2024
K
Distúrbios do sono
25 a 75 mg/dia Aumento na duração e na qualidade do sono em pacientes com distúrbios de sono e sintomas associados.
Shannon et al., 2019; Narayan et al., 2022; Wieckiewicz et al., 2022; Safi et al., 2024
L
Estresse pós-traumático (EPT)
20 mg/dia (em alguns estudos, doses de 300 mg/dia também foram utilizadas) Diminuição dos sintomas de ansiedade, flashbacks e melhora a qualidade de sono.
Blessing et al., 2015; Bitencourt et al., 2018; Silvestro et al., 2019; Elms et al., 2019
As doses podem variar conforme o estudo e a condição clínica analisada. Os intervalos de dosagens fornecidos foram citados em estudos clínicos ou revisão sistemática que aborda tal tema.
Alvos para a ação do CBD
O CBD possui afinidade com diversos alvos moleculares, o que permite diferentes efeitos terapêuticos. Suas interações biológicas vêm sendo cada vez mais estudadas para esclarecer e justificar os efeitos observados. Entre esses mecanismos, destaca-se a modulação do sistema endocanabinoide, um dos sistemas bioquímicos mais complexos e relevantes do corpo humano.
Esse sistema é responsável pela manutenção da homeostase, regulando funções imunológicas, digestivas, neurológicas, metabólicas, reprodutivas, entre outras. O sistema endocanabinoide é composto pelos endocanabinoides anandamida (AEA) e 2-araquidonoilglicerol (2-AG), pelos receptores canabinoides CB1 e CB2, além das enzimas responsáveis pela síntese e degradação desses endocanabinoides.
Rapin et al., 2021; Child & Tallon, 2022; Flores et al., 2023; Bellocchio et al., 2023; Meissner & Cascella, 2024
Distribuição dos receptores canabinoides (CB1 e CB2) e principais processos biológicos modulados pelo sistema endocanabinoide Figura 1 · adaptada de Safi et al., 2024 · toque para ampliar
Principais reações adversas associadas ao uso de CBD
Aqui estão listadas as principais reações adversas identificadas em estudos com o uso de CBD; os efeitos adversos variam dependendo da dose, da condição clínica e da frequência de uso.
Sonolência, diminuição do apetite, diarreia e fadiga.
Devinsky et al., 2017
Sonolência, sedação e hipotensão.
Zuardi et al., 2006
Fadiga, alterações no apetite e no peso, angústia e diarreia.
Iffland & Grotenhermen, 2017
Sonolência, diarreia, alterações no apetite e no peso, angústia e diarreia.
Bergamaschi et al., 2011
Sonolência, aumento das enzimas hepáticas e diminuição do apetite.
Huestis et al., 2019
Infecção respiratória, morte, diarreia, perda de apetite, vômito e fadiga.
Taylor et al., 2018
Sonolência, diarreia, alterações no apetite, fadiga e boca seca.
Shannon et al., 2019
Dose indicada
A dose usual de canabidiol (CBD) varia conforme a patologia e a forma de administração, tendo grande influência da resposta individualizada de cada paciente exposto à substância.
Ainda não há uma padronização de dose para cada patologia; porém, de acordo com revisões de literatura e estudos clínicos, têm sido analisadas diferentes doses para diversas patologias.
Ressalta-se que inicialmente sejam utilizadas as menores doses possíveis e, ao longo do tratamento, por meio da observação clínica, caso necessário, elas sejam ajustadas gradualmente, levando em consideração fatores como a condição clínica, o peso corporal, o metabolismo e a resposta do paciente, na tentativa de minimizar efeitos adversos e otimizar os benefícios terapêuticos.
Blessing et al., 2015; Prud’homme et al., 2015; Elms et al., 2019; Shannon et al., 2019; Meissner & Cascella, 2024
Conversão da dose de canabidiol (solução 3%)
Dose
Volume
Dose
Volume
3 mg
0,1 mL
40 mg
1,34 mL
5 mg
0,17 mL
45 mg
1,5 mL
10 mg
0,34 mL
50 mg
1,67 mL
15 mg
0,5 mL
55 mg
1,84 mL
20 mg
0,67 mL
60 mg
2 mL
25 mg
0,84 mL
90 mg
3 mL
30 mg
1 mL
120 mg
4 mL
35 mg
1,17 mL
Sugestão de fórmula
Sugestão de fórmula • IN
01
Modelo de prescriçãoBasta personalizar com a dose desejada
ou
CanabidiolX mg
Triglicerídeos de cadeia média (TCM) qsp1 dose
Posologia: Administrar diariamente junto à refeição para melhor absorção, ou conforme orientado. Manipule 30 doses.
CanabidiolX mL
Triglicerídeos de cadeia média (TCM) qsp1 dose
Posologia: Administrar diariamente junto à refeição para melhor absorção, ou conforme orientado. Manipule 30 doses.
Referências
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