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Pediatria

Equilíbrio gastrointestinal infantil

Motilidade, microbiota e mucosa na infância

Menina sorridente de camiseta amarela com as mãos sobre a barriga

Soluções clínicas integradas para motilidade, diarreia, constipação, distensão abdominal, refluxo e equilíbrio da microbiota intestinal na infância.

Visão geral

A saúde do trato gastrointestinal infantil está diretamente relacionada ao crescimento, à função imune e ao desenvolvimento da criança, sendo uma demanda frequente na prática pediátrica e na nutrição clínica. Condições como diarreia funcional e infecciosa, distensão abdominal, constipação funcional, refluxo e alterações da microbiota intestinal frequentemente coexistem e exigem abordagens integradas e individualizadas.

Este material reúne estratégias clínicas voltadas ao manejo dessas desordens, associando suplementação nutricional direcionada, fármacos reguladores da motilidade e formulações manipuladas adaptadas à idade, peso e perfil clínico pediátrico.

O conteúdo apresenta soluções aplicáveis à prática clínica, com foco em motilidade intestinal, integridade da mucosa, equilíbrio da microbiota e controle de processos inflamatórios gastrointestinais.

Ottria et al., 2024; Tain & Hsu, 2023; Corsello et al., 2023; Bhoite et al., 2022

Principais desordens clínicas abordadas

  1. 1

    Diarreia funcional e infecciosa

    Reequilíbrio da microbiota e suporte à função intestinal.

  2. 2

    Distensão abdominal e gases

    Redução do desconforto digestivo e da fermentação intestinal.

  3. 3

    Constipação funcional

    Facilitação do trânsito intestinal e melhora da regularidade evacuatória.

  4. 4

    Proteção da mucosa gástrica

    Suporte à integridade da mucosa e ao conforto gástrico.

  5. 5

    Auxílio na terapêutica do refluxo

    Atenuação de sintomas gastroesofágicos funcionais.

  6. 6

    Imunomodulação intestinal

    Fortalecimento da resposta imune e recuperação da mucosa intestinal.

Vázquez-Frias et al., 2025; Ottria et al., 2023; Perez-Diaz-del-Campo et al., 2023; Avelar et al., 2021

Fármacos reguladores da motilidade gastrointestinal pediátrica

Doses em uso pediátrico

De acordo com Corsello e colaboradores (2023), alterações da motilidade gastrointestinal são frequentes na prática pediátrica e podem manifestar-se por refluxo persistente, constipação funcional, distensão abdominal e atraso do esvaziamento gástrico, especialmente em crianças com condições neurológicas ou maior complexidade clínica.

Quando medidas dietéticas e nutricionais não provocam resposta adequada, fármacos reguladores da motilidade podem auxiliar no controle dos sintomas e na melhora do trânsito gastrointestinal.

A escolha terapêutica deve considerar idade, peso, tolerabilidade e mecanismo predominante da disfunção motora. Ao lado estão os principais fármacos utilizados na prática pediátrica para regulação da motilidade gastrointestinal, com seus respectivos mecanismos de ação e doses descritas na literatura.

Sugestão de fórmula

Sugestão de fórmula • IN
01

Constipação funcional≥ 2 anos

Quando usarConstipação funcional com fezes endurecidas, evacuação dolorosa ou retenção fecal leve.
PEG0,4–0,8 g/kg/dia
Excipiente qsp1 dose

Posologia: 1 dose ao dia, com ajuste conforme resposta evacuatória, ou conforme orientação profissional.

Sobre os ativos
PolietilenoglicolPEG
0,2–0,8 g/kg/dia
Impactação: 1–1,5 g/kg/dia por poucos dias
Laxativo osmótico que aumenta a hidratação fecal e facilita a evacuação em crianças com constipação funcional.Corsello et al., 2023
FármacoDose em uso pediátricoMecanismo
Domperidona*10 mg até três vezes ao diaAntagonista dos receptores dopaminérgicos D2.
Metoclopramida0,1–0,15 mg/kg/dose, até 3 vezes ao diaAntagonista dos receptores dopaminérgicos (D1 e D2) e serotoninérgicos (5-HT3 e 5-HT4).
Eritromicina3–5 mg/kg/doseAgonista do receptor de motilina (promove motilidade gastrointestinal).
Ondansetrona2–8 mg por via oral, até 3 vezes ao diaAntagonista seletivo dos receptores serotoninérgicos 5-HT3.
Ciproheptadina0,19 mg/kg/dia (uso off label)Antagonista de serotonina, histamina H1 e receptores muscarínicos.
Baclofeno0,5–0,7 mg/kg, uma vez ao dia, por 1 semanaAgonista seletivo do receptor GABA-B.

*Aprovada para crianças com idade ≥ 12 anos e peso ≥ 35 kg. Corsello et al., 2023

Como a suplementação pode auxiliar na desregulação do trato gastrointestinal

A suplementação nutricional direcionada pode auxiliar nas desordens gastrointestinais infantis ao atuar sobre microbiota intestinal, barreira mucosa, resposta imune e inflamação subclínica.

Essas intervenções contribuem para redução da disbiose, da permeabilidade intestinal aumentada e da adesão de patógenos, favorecendo recuperação da função intestinal e da motilidade gastrointestinal.

Principais eixos de atuação da suplementação na saúde gastrointestinal pediátrica

  1. A

    Equilíbrio da microbiota intestinal

    Favorece proliferação de microrganismos benéficos, minimiza disbiose e auxilia na função intestinal (FOS, Fiberbiotic®, Lactobacillus, Bifidobacterium).

  2. B

    Regulação da função e motilidade intestinal

    Auxilia no trânsito gastrointestinal, reduz fermentação excessiva e melhora desconfortos digestivos (fibras fermentáveis, enzimas digestivas).

  3. C

    Modulação da resposta imune intestinal

    Contribui para resposta imune da mucosa e redução da recorrência infecciosa (Wellmune®, lactoferrina, probióticos).

  4. D

    Suporte à barreira intestinal e integridade da mucosa

    Favorece integridade epitelial, permeabilidade intestinal equilibrada e recuperação da mucosa (glutamina, Wellmune®, vitamina D).

  5. E

    Controle do estresse oxidativo e inflamação intestinal

    Auxilia no equilíbrio inflamatório e na proteção da função intestinal (vitamina D, vitamina C, zinco).

Sugestão de fórmula • IN
02

Modulação da resposta imune

Quando usarDesequilíbrio da microbiota, fragilidade da mucosa intestinal ou recorrência infecciosa.
Wellmune®2,5 mg/kg
Goma infantil qsp1 unidade

Posologia: 1 goma ao dia, ou conforme orientação profissional.

Sobre os ativos
Wellmune®2,5 mg/kg
Favorece a ativação da imunidade inata da mucosa, contribuindo para uma resposta mais eficiente frente a agentes infecciosos e equilíbrio intestinal.Bhoite et al., 2022
Sugestão de fórmula • IN
03

Diarreia funcional e infecciosa≥ 2 anos

Quando usarDiarreia aguda leve a moderada, fezes amolecidas recorrentes, pós-gastroenterite ou pós-antibiótico.
Wellmune®50 mg
Saccharomyces boulardii5 BLH.UFC
Lactobacillus rhamnosus3 BLH.UFC
Zinco taste free20 mg
Sachê qsp1 dose

Posologia: 1 dose ao dia, diluída em líquido, por 10 a 14 dias, ou conforme orientação profissional.

Sobre os ativos
Lactobacillus rhamnosus1–5 BLH.UFC
Probiótico com evidência na redução da duração da diarreia e no equilíbrio imune intestinal.Schnadower et al., 2018
Saccharomyces boulardii5–10 BLH.UFC
Levedura probiótica que reduz diarreia infecciosa e associada ao uso de antibióticos.Mourey et al., 2020
Zinco taste free> 6 meses: 20 mg
< 6 meses: 10 mg
Manutenção: 5 mg
Contribui para recuperação da função intestinal e redução da duração da diarreia aguda.Ottria et al., 2024
Sugestão de fórmula • IN
05

Proteção de mucosa e imunomodulação intestinal≥ 5 anos

Quando usarApós infecções gastrointestinais, desconforto digestivo recorrente ou fragilidade da mucosa intestinal.
Fiber biotic1 g
Lactoferrina100 mg
Vitamina D600 UI
Zinco taste free5 mg
Goma qsp1 dose

Posologia: 1 dose ao dia, ou conforme orientação profissional.

Sobre os ativos
Fiber biotic0,5–2 g
(50–100 mg/kg)
Fibra solúvel que favorece microbiota, consistência fecal e recuperação intestinal pós-diarreia infecciosa.Wu et al., 2025
Lactoferrina50–100 mg
Exibe ação antimicrobiana, imunomoduladora e reguladora da inflamação intestinal.Miyakawa; Oda; Tanaka, 2023
Vitamina D400–1000 UI
Atua na regulação imunológica e na manutenção da integridade da barreira intestinal.Bhoite et al., 2022
Zinco taste free0,25–0,5 mg/kg
Complexo que protege e favorece a regeneração da mucosa gástrica, com ação anti-inflamatória local.Bhoite et al., 2022

Olhar científico

Potencial das enzimas digestivas em crianças com TEA de 3 a 9 anos

Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, avaliou o uso de enzimas digestivas em 101 crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), entre 3 e 9 anos, durante 3 meses. Os participantes receberam enzimas digestivas ou placebo, com acompanhamento clínico e monitoramento de segurança. Alguns pacientes apresentaram efeitos adversos leves e transitórios, com baixa taxa de descontinuação do tratamento.

Resultados principais

  1. O grupo que recebeu a suplementação com enzimas apresentou redução do comprometimento comportamental avaliado por escalas estruturadas que permitem mensurar a gravidade dos sintomas (CARS e GBRS).
  2. Houve melhora da resposta emocional e do comportamento global.
  3. Redução de sintomas gastrointestinais, incluindo dor abdominal, alterações das fezes e vômitos.
  4. Melhora da variedade alimentar relatada pelos cuidadores.

Conclusão

A suplementação com enzimas digestivas demonstrou potencial como estratégia adjuvante no manejo gastrointestinal de crianças com TEA, apresentando boa tolerabilidade e impacto positivo sobre sintomas digestivos e comportamentais associados.

Saad et al., 2015

Sugestão de fórmula a partir do artigo

Sugestão de fórmula • IN
04

Distensão abdominal e gases≥ 3 anos

Quando usarDistensão abdominal, gases recorrentes e desconforto digestivo associado à fermentação intestinal.
Papaína1,6 g
Pepsina0,8 g
Solução oral qsp100 mL

Posologia: Total de 15 mL ao dia (5 mL a cada refeição), ou conforme orientação profissional.

Sobre os ativos
Papaína1,6 g (conforme estudo)
50–100 mg/kg
Enzima proteolítica que facilita a digestão de proteínas e reduz fermentação intestinal.Wu et al., 2025
Pepsina0,8 g (conforme estudo)
25–50 mg/kg
Enzima gástrica que auxilia a digestão proteica e melhora o esvaziamento gástrico.Saad et al., 2015
Suporte gastrointestinal em crianças com TEA Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam maior frequência de alterações gastrointestinais, incluindo constipação funcional, distensão abdominal, dor abdominal recorrente e alterações do padrão evacuatório. Segundo Petropoulos e colaboradores (2025), evidências recentes sugerem associação entre disbiose intestinal, permeabilidade aumentada, alterações da motilidade e maior ativação inflamatória intestinal, fatores que podem impactar tanto a função gastrointestinal quanto manifestações comportamentais e sensoriais observadas nesses pacientes. Nesse contexto, estratégias nutricionais individualizadas com prebióticos, probióticos, enzimas digestivas e compostos antioxidantes podem auxiliar no equilíbrio da microbiota, na integridade da barreira intestinal e na melhora de sintomas digestivos recorrentes, especialmente quando adaptadas à idade, tolerabilidade e padrão alimentar da criança. Wu et al., 2025
Sugestão de fórmula • IN
06

Disbiose intestinal no TEA≥ 3 anos

Quando usarDisbiose intestinal associada a constipação, distensão abdominal ou alterações das fezes.
Frutooligossacarídeos (FOS)1000 mg
Bifidobacterium lactis2 BLH.UFC
Bifidobacterium breve2 BLH.UFC
Lactobacillus rhamnosus2 BLH.UFC
Lactobacillus plantarum2 BLH.UFC
Chocolate funcional1 unidade

Posologia: 1 dose ao dia, ou conforme orientação profissional.

Sobre os ativos
Bifidobacterium lactis1–5 BLH.UFC
Cepa com boa tolerabilidade e impacto positivo na constipação e integridade da mucosa intestinal.Tain & Hsu, 2023
Bifidobacterium breve1–5 BLH.UFC
Associada à melhora da fermentação e do desconforto intestinal.Tain & Hsu, 2023
Lactobacillus rhamnosus1–5 BLH.UFC
Atua na modulação do sistema imune e estabilidade da microbiota intestinal.Schnadower et al., 2018
FrutooligossacarídeosFOS
1–2 g
50–100 mg/kg
Favorece proliferação de bifidobactérias, melhora a constipação funcional e equilibra a microbiota.Wu et al., 2025

Referências

  1. Avelar Rodriguez D, Popov J, Ratcliffe EM, Toro Monjaraz EM. Functional Constipation and the Gut Microbiome in Children: Preclinical and Clinical Evidence. Front Pediatr. 2021 Jan 20;8:595531. doi:10.3389/fped.2020.595531
  2. Bhoite R, Satyavrat V, Premasudha Sadananda M. Clinical benefits of β-glucan supplementation in children: a review. Discov Food. 2022;2(1):37. doi:10.1007/s44187-022-00038-0
  3. Corsello A, Scatigno L, Govoni A, Zuccotti G, Gottrand F, Romano C, Verduci E (2023). Gut dysmotility in children with neurological impairment: the nutritional management. Front. Neurol. 14:1200101. doi:10.3389/fneur.2023.1200101
  4. Mensi MM, Rogantini C, Marchesi M, Borgatti R, Chiappedi M. Lactobacillus plantarum PS128 and Other Probiotics in Children and Adolescents with Autism Spectrum Disorder: A Real-World Experience. Nutrients. 2021 Jun 14;13(6):2036. doi:10.3390/nu13062036
  5. Miyakawa M, Oda H, Tanaka M. Clinical research review: usefulness of bovine lactoferrin in child health. Biometals. 2023 Jun;36(3):473-489. doi:10.1007/s10534-022-00430-4
  6. Mourey F, Sureja V, Kheni D, Shah P, Parikh D, Upadhyay U, Satia M, Shah D, Troise C, Decherf A. A Multicenter, Randomized, Double-blind, Placebo-controlled Trial of Saccharomyces boulardii in Infants and Children With Acute Diarrhea. Pediatr Infect Dis J. 2020 Nov;39(11):e347-e351. doi:10.1097/INF.0000000000002849
  7. Ottria R, Xynomilakis O, Casati S, Ciuffreda P. Pre- to Postbiotics: The Beneficial Roles of Pediatric Dysbiosis Associated with Inflammatory Bowel Diseases. Microorganisms. 2024 Aug 2;12(8):1582. doi:10.3390/microorganisms12081582
  8. Pérez-Cabral, I. D., Bernal-Mercado, A. T., Islas-Rubio, A. R., Suárez-Jiménez, G. M., Robles-García, M. Á., Puebla-Duarte, A. L., & Del-Toro-Sánchez, C. L. (2024). Exploring Dietary Interventions in Autism Spectrum Disorder. Foods, 13(18), 3010. doi:10.3390/foods13183010
  9. Petropoulos A, Stavropoulou E, Tsigalou C, Bezirtzoglou E. Microbiota Gut-Brain Axis and Autism Spectrum Disorder: Mechanisms and Therapeutic Perspectives. Nutrients. 2025 Sep 17;17(18):2984. doi:10.3390/nu17182984
  10. Saad K, Eltayeb AA, Mohamad IL, Al-Atram AA, Elserogy Y, Bjørklund G, El-Houfey AA, Nicholson B. A Randomized, Placebo-controlled Trial of Digestive Enzymes in Children with Autism Spectrum Disorders. Clin Psychopharmacol Neurosci. 2015 Aug 31;13(2):188-93. doi:10.9758/cpn.2015.13.2.188
  11. Schnadower D, Tarr PI, Casper TC, Gorelick MH, Dean JM, O'Connell KJ, Mahajan P, Levine AC, Bhatt SR, Roskind CG, Powell EC, Rogers AJ, Vance C, Sapien RE, Olsen CS, Metheney M, Dickey VP, Hall-Moore C, Freedman SB. Lactobacillus rhamnosus GG versus Placebo for Acute Gastroenteritis in Children. N Engl J Med. 2018 Nov 22;379(21):2002-2014. doi:10.1056/NEJMoa1802598
  12. Tain, Y.-L., & Hsu, C.-N. (2023). Role of the Gut Microbiota in Children with Kidney Disease. Children, 10(2), 269. doi:10.3390/children10020269
  13. Vázquez-Frias R, Vinderola G, Abreu Y Abreu AT, Angulo D, Giler-Párraga N, Ladino L, Ortiz C, Pereira S, Bustamante JP. Postbiotics in pediatric clinical practice: position paper from Special Group of Latin American Society of Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (LASPGHAN). Front Nutr. 2025 Dec 17;12:1716791. doi:10.3389/fnut.2025.1716791
  14. Wu Y, Wong OWH, Chen S, Ng SC, Su Q, Chan FKL. Gastrointestinal health and nutritional strategies in autism spectrum disorder. J Gastroenterol. 2025 Aug;60(8):933-946. doi:10.1007/s00535-025-02269-1
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