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Saúde digestiva

Enzimas digestivas na prática clínica

Dispepsia, fermentação e conforto pós-prandial

Mulher sorridente com as mãos sobre o abdômen

Estratégias personalizadas para desconfortos digestivos, dispepsia e suporte à função gastrointestinal.

Visão geral

No consultório, plenitude pós-prandial, sensação de digestão lenta, desconforto epigástrico, flatulência e distensão abdominal frequentemente exigem uma leitura integrada do padrão alimentar, da queixa predominante e dos fatores que podem interferir na eficiência digestiva. Refeições hiperproteicas, carboidratos fermentáveis, lactose e preparações ricas em lipídios podem desencadear ou intensificar sintomas em indivíduos suscetíveis, exigindo estratégias distintas conforme o substrato envolvido e o perfil clínico.

Moshiree et al., 2023

Este material organiza a conduta a partir do substrato alimentar e do perfil clínico. A tabela de enzimas orienta a seleção conforme atividade e finalidade de uso, enquanto as sugestões de fórmulas associam fitoterápicos e nutracêuticos aos objetivos de suporte à digestão proteica, ao processamento de carboidratos, ao conforto pós-prandial, à dispepsia, à fermentação intestinal e à função hepatobiliar. Enzimas digestivas participam da degradação de proteínas, lipídios e carboidratos; sua aplicação deve considerar o mecanismo envolvido e o contexto clínico individual.

Ianiro et al., 2016

Perfis de pacientes Direcionamento da prescriçãoIntegra queixa predominante, padrão alimentar, atividade enzimática e ativo complementar em uma mesma lógica clínica. Aplicação magistral individualizadaPermite ajustar associações, doses, forma farmacêutica e posologia conforme tolerabilidade e resposta clínica.

Principais alvos terapêuticos do trato gastrointestinal

As queixas digestivas podem refletir alterações concomitantes na degradação dos alimentos, na fase gástrica, na fermentação intestinal, na integridade da mucosa e na função hepatobiliar.

A figura sintetiza esses pontos de atenção e organiza uma leitura clínica orientada pela queixa predominante, pelos gatilhos alimentares e pela tolerabilidade individual. Essa lógica favorece a seleção mais precisa de enzimas digestivas e ativos complementares dentro das estratégias propostas neste material.

Importante na consideração clínicaApós identificar a queixa predominante e definir o objetivo terapêutico, as abordagens complementares devem ser individualizadas conforme perfil clínico, eixo fisiológico prioritário, tolerabilidade e medicamentos em uso. Os ativos apresentados integram estratégias de suporte à função gastrointestinal, selecionadas com base em racional clínico, segurança e aplicabilidade terapêutica.

Alvos terapêuticos para saúde gastrointestinal Figura 1 · toque para ampliar

Figura 1: ilustração do trato gastrointestinal com os alvos terapêuticos: queixas após refeições específicas (suporte à digestão de proteínas, lipídios e carboidratos), desconforto após refeições ricas em gordura (conforto digestivo-hepático), desconforto pós-prandial, manutenção da mucosa (barreira intestinal), disbiose e trânsito intestinal (equilíbrio intestinal) e gases, flatulência e distensão (redução do desconforto da fermentação)

Evidência clínica

Suplementação multienzimática na dispepsia funcional

Ullah e colaboradores (2023) avaliaram 120 adultos (63 homens e 57 mulheres) com dispepsia funcional, com idade entre 18 e 59 anos, em ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Os participantes receberam 200 mg de uma mistura multienzimática, contendo protease, amilase, lipase, celulase e lactase, ou placebo, 2 vezes ao dia, antes das principais refeições (almoço e jantar), durante 60 dias.

A resposta foi avaliada em três momentos: início (t0), 30 dias (t1) e 60 dias (t2), considerando sintomas digestivos, intensidade da dor, qualidade de vida e tolerabilidade.

Conclusão

A suplementação multienzimática melhorou sintomas da dispepsia funcional e da intensidade da dor, com efeitos positivos sobre qualidade de vida e sono, além de boa tolerabilidade. Diante dos resultados, os autores sugerem que essa abordagem pode representar uma estratégia complementar para o manejo da dispepsia funcional.

Resultados

  1. Melhora dos sintomas digestivos: após 60 dias, o grupo suplementado apresentou melhora significativa nos escores NDI-SF, indicando redução dos sintomas associados à dispepsia funcional em comparação ao placebo.
  2. Redução da intensidade da dor: a escala VAS mostrou mudança de dor leve para ausência de dor no grupo em uso de enzimas. No placebo, houve tendência oposta, com aumento significativo do escore em t2.
  3. Benefícios além dos sintomas gastrointestinais: a intervenção apresentou efeito positivo sobre sintomas do trato gastrointestinal superior, acompanhado de melhora da qualidade de vida e do sono ao longo do acompanhamento.
  4. Boa tolerabilidade durante 60 dias: a mistura multienzimática administrada antes das principais refeições mostrou-se bem tolerada durante os 60 dias de intervenção.

Direcionamento clínico das enzimas digestivas

Tabela 1

EixoEnzimaFunção principalBenefícioAtividade / dose usual
Digestão de proteínasProteaseDesconforto após refeições ricas em proteína.Favorece a hidrólise de proteínas alimentares, auxiliando a digestão proteica.12.000–36.000 HUT/dose
100–300 mg
PepsinaDigestão proteica e suporte à fase gástrica da digestão.Enzima proteolítica ativa em meio ácido, envolvida na etapa inicial da digestão de proteínas.60–200 mg
BromelinaRefeições hiperproteicas; composição de complexos digestivos.Enzima proteolítica complementar à digestão de proteínas.120–2.400 GDU
50–500 mg
PapaínaRefeições hiperproteicas; composição de complexos digestivos.Atua na proteólise de proteínas alimentares.100.000 PU
120–600 mg
Digestão de carboidratosAlfa-amilaseDesconforto após refeições ricas em amido.Atua na digestão do amido e de carboidratos complexos.600–6.000 DU/dose
30–400 mg
Digestão de carboidratos fermentáveisLactaseSintomas associados ao consumo de alimentos contendo lactose.Hidrolisa a lactose, reduzindo sua chegada não digerida ao cólon.1.000–10.000 ALU ou FCC
Alfa-galactosidaseGases e distensão após leguminosas e vegetais fermentáveis.Reduz a fermentação de oligossacarídeos específicos.260–3.000 GalU/dia
50–400 mg
Digestão de lipídiosLipasePlenitude ou desconforto após refeições ricas em lipídios.Participa da hidrólise de triglicerídeos.200–600 FIP
100–300 mg
Digestão globalPancreatinaSuporte enzimático amplo; sinais de má absorção requerem investigação da função pancreática.Complexo de lipase, amilase e protease para digestão de macronutrientes.150–500 mg

Ianiro et al., 2016

Sugestões de fórmulas

Sugestão de fórmula • IN
01

Suporte enzimático na dispepsia funcional

Quando usarSuporte enzimático na dispepsia funcional.
Protease ácida100 mg
Alfa-amilase60 mg
Lipase100 mg
Zinco carnosina38 mg
Excipiente qsp1 dose

Posologia: 1 dose imediatamente antes ou junto às principais refeições.

Sobre os ativos
Zinco carnosina37,5–150 mg
Auxilia na proteção e integridade da mucosa gastrointestinal, contribuindo para os processos de reparo epitelial.Mahmood et al., 2007
Sugestão de fórmula • IN
02

Fermentação e flatulência

Quando usarPaciente com distensão, flatulência excessiva e piora após fermentáveis.
Biointestil®200 mg
Alfa-amilase60 mg
Alfa-galactosidase100 mg
Hortelã-pimenta180 mg
Funcho200 mg
Camomila150 mg
Excipiente qsp1 dose

Posologia: 1 dose imediatamente antes ou junto a refeições com maior teor de amido, leguminosas ou outros alimentos fermentáveis.

Sobre os ativos
Biointestil®200–600 mg
Auxilia no conforto gastrointestinal, com potencial benefício sobre gases e distensão abdominal.Ricci et al., 2022
FunchoFoeniculum vulgare
200–2000 mg
Favorece melhora da flatulência, distensão e espasmos gastrointestinais leves.EMA, 2025
Camomila100–600 mg
Auxilia em desconforto gastrointestinal leve, gases e espasmos.EMA, 2010
Mentha piperitaHortelã-pimenta
180–270 mg
Pode auxiliar no desconforto abdominal e dispéptico por sua ação antiespasmódica.Madisch et al., 1999
Sugestão de fórmula • IN
03

Conforto digestivo pós-prandial

Quando usarPlenitude, sensação de digestão lenta e desconforto após as refeições.
GutCare®75 mg
Alfa-amilase50 mg
Protease ácida100 mg
Lipase100 mg
Boldo300 mg
Alcachofra320 mg
Excipiente qsp1 dose

Posologia: 1 dose imediatamente antes ou junto à refeição principal.

Boldo + alcachofra: cautela em obstrução biliar, cálculos sintomáticos e doenças das vias biliares.

Sobre os ativos
GutCare®75–150 mg
Padronizado em 10% de flavonoides e 3,5% de glabridina, utilizado como coadjuvante no conforto epigástrico e em estratégias para dispepsia funcional.Literatura técnica do fabricante
BoldoPeumus boldus
100–300 mg
Em adultos, pode auxiliar no alívio sintomático de dispepsia, espasmos gastrointestinais leves e desconforto pós-prandial.EMA, 2025
AlcachofraCynara cardunculus
200–1900 mg
Coadjuvante em dispepsia funcional, plenitude e desconforto após refeições. Pode ser associada aos blocos de digestão de lipídios ou digestão global.Holtmann et al., 2003
Sugestão de fórmula • IN
04

Digestão de lactose

Quando usarGases, distensão ou desconforto após consumo de alimentos contendo lactose.
Lactase3.000 ALU
Excipiente qsp1 dose

Posologia: 1 dose imediatamente antes ou junto à ingestão de alimentos contendo lactose.

Sugestão de fórmula • IN
05

Digestão proteica

Quando usarPaciente com desconforto após refeições hiperproteicas.
Protease ácida100 mg
Pepsina100 mg
Bromelina70 mg
Papaína120 mg
Gengibre200 mg
Excipiente qsp1 dose

Posologia: 1 dose junto a refeições ricas em proteína.

Sobre os ativos
GengibreZingiber officinale
200–1200 mg
Pode auxiliar no conforto pós-prandial, especialmente diante de plenitude e desconforto gástrico.Baek et al., 2025
Sugestão de fórmula • IN
06

Digestão de lipídios e suporte hepatobiliar

Quando usarDesconforto e sensação de peso após refeições com maior teor de lipídios.
Pancreatina150 mg
Lipase120 mg
Altilix®200 mg
Silimarina150 mg
Excipiente qsp1 dose

Posologia: 1 dose imediatamente antes ou junto à principal refeição com maior teor de lipídios.

Sobre os ativos
Altilix®100–200 mg
Suporte ao metabolismo fisiológico de lipídios e à função hepatobiliar.Literatura técnica do fabricante
SilimarinaSilybum marianum
150–300 mg
Facilita suporte hepatocelular em estratégias complementares.Gillessen; Schmidt, 2020

Referências

  1. Aggeletopoulou, I., Karaivazoglou, K., Kalafateli, M., & Triantos, C. (2025). Visando a síndrome do intestino irritável por meio de dieta e terapias baseadas em mecanismos: uma abordagem fisiopatológica. Nutrients, 17(22), 3595. doi:10.3390/nu17223595
  2. Al Bander Z, Nitert MD, Mousa A, Naderpoor N. The Gut Microbiota and Inflammation: An Overview. Int J Environ Res Public Health. 2020 Oct 19;17(20):7618. doi:10.3390/ijerph17207618
  3. Baek, H.-I., Ha, N.-R., Kim, C., Im, T. J., Kim, Y. Y., Hwang, S. H., & Bae, J. W. (2025). Efficacy and safety of steamed ginger extract for gastric health: A randomized, double-blind, placebo-controlled multi-center clinical trial. Food & Function, 16(18), 7316–7329. doi:10.1039/D5FO01172H
  4. De Beul E, Heyse J, Jurgelewicz M, Baudot A, Vu LD, Van den Abbeele P. N-Acetylglucosamine and Immunoglobulin Strengthen Gut Barrier Integrity via Complementary Microbiome Modulation. Nutrients. 2026 Jan 9;18(2):210. doi:10.3390/nu18020210
  5. European Medicines Agency. (2025). Addendum to assessment report on Peumus boldus Molina, folium (EMA/HMPC/329351/2024). https://www.ema.europa.eu/en/documents/herbal-report/addendum-assessment-report-peumus-boldus-molina-folium_en.pdf
  6. Gillessen A, Schmidt HH. Silymarin as Supportive Treatment in Liver Diseases: A Narrative Review. Adv Ther. 2020 Apr;37(4):1279-1301. doi:10.1007/s12325-020-01251-y
  7. Health Canada. (n.d.). Digestive enzymes. Natural Health Products Ingredients Database. https://webprod.hc-sc.gc.ca/nhpid-bdipsn/dbImages/mono_digestive-enzymes_english.pdf
  8. Ianiro G, Pecere S, Giorgio V, Gasbarrini A, Cammarota G. Digestive Enzyme Supplementation in Gastrointestinal Diseases. Curr Drug Metab. 2016;17(2):187-93. doi:10.2174/138920021702160114150137
  9. Mahmood A, FitzGerald AJ, Marchbank T, Ntatsaki E, Murray D, Ghosh S, Playford RJ. Zinc carnosine, a health food supplement that stabilises small bowel integrity and stimulates gut repair processes. Gut. 2007 Feb;56(2):168-75. doi:10.1136/gut.2006.099929
  10. Moshiree B, Drossman D, Shaukat A. AGA Clinical Practice Update on Evaluation and Management of Belching, Abdominal Bloating, and Distention: Expert Review. Gastroenterology. 2023 Sep;165(3):791-800.e3. doi:10.1053/j.gastro.2023.04.039
  11. Polanco V, Cerdá-Bernad D, Quispe-Fuentes I, Bernal C, López J. Bioactive Content and Antioxidant Properties of Spray-Dried Microencapsulates of Peumus boldus M. Leaf Extracts. Antioxidants (Basel). 2024 Dec 20;13(12):1568. doi:10.3390/antiox13121568
  12. Ricci C, Rizzello F, Valerii MC, Spisni E, Gionchetti P, Turroni S, Candela M, D'Amico F, Spigarelli R, Bellocchio I, Marasco G, Barbara G. Geraniol Treatment for Irritable Bowel Syndrome: A Double-Blind Randomized Clinical Trial. Nutrients. 2022 Oct 10;14(19):4208. doi:10.3390/nu14194208
  13. Ullah H, Di Minno A, Piccinocchi R, Buccato DG, De Lellis LF, Baldi A, El-Seedi HR, Khalifa SAM, Piccinocchi G, Xiao X, Sacchi R, Daglia M. Efficacy of digestive enzyme supplementation in functional dyspepsia: A monocentric, randomized, double-blind, placebo-controlled, clinical trial. Biomed Pharmacother. 2023 Dec 31;169:115858. doi:10.1016/j.biopha.2023.115858
  14. Zhou, Q., Verne, M. L., Fields, J. Z., Lefante, J. J., Basra, S., Salameh, H., & Verne, G. N. (2019). Randomised placebo-controlled trial of dietary glutamine supplements for postinfectious irritable bowel syndrome. Gut, 68(6), 996–1002. doi:10.1136/gutjnl-2017-315136
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